Carolina Maria de Jesus ganha primeiro teaser e revela imagens inéditas durante a Bienal do Livro de São Paulo

Longa dirigido por Jeferson De adapta “Quarto de Despejo” para o cinema e apresenta uma abordagem que vai além da trajetória literária da escritora; estreia está prevista para 2027

A história de uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira ganhou um novo capítulo no último sábado (5). O filme “Carolina Maria de Jesus” teve seu primeiro teaser apresentado ao público durante um painel especial realizado na Bienal do Livro de São Paulo, em uma conversa dedicada à memória, ao legado e à relevância da autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada.

A apresentação marcou a primeira divulgação oficial de imagens do longa e ofereceu um breve vislumbre da produção dirigida por Jeferson De, que atualmente está em fase de pós-produção e tem lançamento previsto para 2027.

Mais do que apresentar a trajetória de Carolina Maria de Jesus, o filme pretende lançar um olhar cinematográfico sobre a mulher por trás da escritora que se tornou referência mundial. A produção parte de seus próprios escritos para reconstruir um período decisivo de sua vida, explorando também aspectos pessoais que muitas vezes ficam em segundo plano quando sua obra é abordada.

Um encontro entre literatura, memória e cinema

O painel realizado na Bienal reuniu profissionais diretamente ligados ao projeto e pessoas que possuem uma relação especial com a trajetória de Carolina.

Participaram da conversa Maria Gal, responsável por interpretar Carolina no filme e também uma das produtoras da produção; Vera Eunice, filha da escritora e integrante do elenco; Clayton Nascimento, ator e preparador de elenco; e Conceição Evaristo, uma das principais representantes da literatura afro-brasileira, que também participa do longa como atriz.

A discussão foi conduzida pela jornalista e apresentadora Adriana Couto.

O encontro serviu não apenas para apresentar o primeiro teaser, mas também para discutir os desafios envolvidos em transformar a vida e a obra de uma personalidade tão importante em uma narrativa cinematográfica.

A proposta é preservar a força da voz de Carolina sem reduzir sua trajetória apenas à condição de escritora que retratou a pobreza e a desigualdade social.

Uma Carolina além de “Quarto de Despejo”

Com roteiro de Maíra Oliveira, o longa tem como ponto de partida o célebre livro Quarto de Despejo, mas amplia o olhar sobre sua protagonista.

A narrativa pretende abordar diferentes dimensões da personalidade de Carolina Maria de Jesus, incluindo seus afetos, desejos, vaidade, maternidade e consciência política.

Os registros presentes em seus diários funcionam como uma das principais bases da história, que acompanha o período compreendido entre a escrita da obra e sua posterior publicação.

Essa escolha permite que o filme explore não apenas o impacto de Quarto de Despejo, mas também o processo que antecedeu a transformação de Carolina em um dos nomes mais reconhecidos da literatura brasileira.

A produção busca, dessa maneira, apresentar uma personagem complexa, com sonhos, contradições, relações pessoais e ambições, sem perder de vista o contexto social e político que marcou sua trajetória.

Maria Gal assume o papel de Carolina

A responsabilidade de interpretar Carolina Maria de Jesus ficou com Maria Gal, que também participa da produção do longa.

A atriz terá a missão de transportar para a tela uma personalidade cuja própria voz já se tornou parte fundamental da memória cultural brasileira.

Ao seu lado estará Vera Eunice, filha de Carolina, criando uma conexão particularmente significativa entre a história real e sua representação cinematográfica.

O elenco ainda reúne nomes como Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina Cardoso, Ju Colombo, Caio Manhente, Jack Berraquero, Fabio Assunção, Alan Rocha e Thawan Lucas, entre outros artistas.

A presença de Vera Eunice no projeto acrescenta uma camada especial à produção, aproximando o filme da memória familiar e da perspectiva de quem conviveu diretamente com a escritora.

A reconstrução da Favela do Canindé

Um dos grandes desafios da produção foi recriar visualmente o ambiente em que parte importante da trajetória de Carolina aconteceu.

As filmagens foram realizadas no Rio de Janeiro, utilizando diferentes locações, entre elas a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), além dos Estúdios Quanta Rio de Janeiro.

Nos estúdios, a equipe de arte, comandada por Billy Castilho, construiu uma representação da Favela do Canindé dos anos 1950, período fundamental para a história da escritora.

O cenário principal ocupou mais de 400 m² e foi complementado por dois grandes painéis de LED, utilizados para ampliar a ambientação e reproduzir diferentes perspectivas do local.

As estruturas exibiam imagens do horizonte de São Paulo e outras vistas relacionadas ao Canindé, contribuindo para criar profundidade e ampliar a sensação de realidade dentro do espaço construído.

Somados, o cenário da favela e os painéis de LED ocuparam uma área superior a 700 m².

O trabalho demonstra a dimensão da reconstrução histórica necessária para transportar a história de Carolina para as telas e recriar uma São Paulo de décadas atrás.

Reconhecimento internacional em Cannes

Mesmo antes de chegar aos cinemas, “Carolina Maria de Jesus” já conquistou reconhecimento fora do Brasil.

Em 2026, o projeto participou do Goes to Cannes, iniciativa realizada dentro do Marché du Film, mercado oficial do Festival de Cannes.

A produção brasileira esteve entre apenas três projetos de diferentes partes do mundo selecionados para receber um prêmio de mercado.

O reconhecimento representa um importante passo para o longa, especialmente por se tratar de uma história profundamente ligada à literatura, à cultura e à realidade social brasileira, mas que possui potencial para dialogar com públicos internacionais.

A trajetória de Carolina Maria de Jesus, afinal, ultrapassa as fronteiras brasileiras. Seus escritos transformaram experiências de pobreza, maternidade, racismo, desigualdade e sobrevivência em literatura e fizeram com que sua voz alcançasse leitores em diferentes países.

Uma produção que busca ampliar o olhar sobre uma figura histórica

Ao adaptar a obra de Carolina para o cinema, o projeto assume o desafio de equilibrar sua importância literária com a dimensão humana da personagem.

A intenção é mostrar a mulher que existia por trás dos registros dos diários e permitir que o público conheça outras facetas de sua personalidade.

Nesse sentido, o filme não pretende apenas reproduzir acontecimentos conhecidos, mas construir uma narrativa que ajude a compreender como Carolina se tornou escritora, quais eram suas aspirações e como ela enxergava a própria realidade.

O longa é dirigido por Jeferson De, com roteiro de Maíra Oliveira. A produção é assinada por Clélia Bessa e Maria Gal, com produção associada de Cris Arenas, Rosane Svartman e Sara Silveira.

“Carolina Maria de Jesus” é uma produção da Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, em coprodução com a Globo Filmes, produção associada da Dezenove Som e Imagem e distribuição da Elo Studios.

Ainda em pós-produção, o filme tem estreia prevista para 2027.

A primeira prévia apresentada na Bienal do Livro de São Paulo representa, portanto, o primeiro contato do público com uma produção que pretende transformar em cinema não apenas a obra de Carolina Maria de Jesus, mas também suas memórias, seus conflitos, seus sonhos e a força de uma voz que continua atravessando gerações.

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