Filme sobre Carolina Maria de Jesus ganha destaque na Bienal do Livro de São Paulo com exibição exclusiva de teaser

Produção dirigida por Jeferson De adapta “Quarto de Despejo” para o cinema e reúne Maria Gal, Vera Eunice, Conceição Evaristo e outros nomes em encontro especial no evento

A trajetória de Carolina Maria de Jesus, uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX, ganhará um novo capítulo diante do público durante a Bienal do Livro de São Paulo. No dia 5 de setembro, das 15h15 às 16h, a Arena da Bienal receberá uma atividade especial dedicada ao longa-metragem “Carolina de Jesus”, produção cinematográfica inspirada na vida e na obra da autora de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada.

O encontro terá como foco a memória deixada por Carolina, a relevância de sua literatura para a cultura brasileira e os desafios envolvidos em transformar uma trajetória tão complexa em uma obra audiovisual. Como atração especial, o público presente poderá conferir com exclusividade o primeiro teaser do filme, que ainda está em processo de pós-produção e tem lançamento previsto para 2027.

A conversa contará com a presença de Maria Gal, intérprete de Carolina Maria de Jesus e também produtora do projeto; Vera Eunice, filha da escritora, que participa do filme como atriz; Clayton Nascimento, integrante do elenco e preparador de atores; e Conceição Evaristo, uma das grandes referências da literatura afro-brasileira, que também faz uma participação na produção. A mediação será conduzida pela jornalista e apresentadora Adriana Couto.

Uma Carolina além das páginas de “Quarto de Despejo”

Embora tenha como ponto de partida o célebre Quarto de Despejo, o longa pretende apresentar ao público uma dimensão mais ampla da mulher por trás da escritora. A narrativa busca explorar aspectos de Carolina Maria de Jesus que muitas vezes ficaram em segundo plano diante da força de sua produção literária.

A adaptação parte de seus próprios escritos para abordar afetos, desejos, vaidade, maternidade, relações pessoais e consciência política, construindo uma representação que procura enxergar Carolina para além da condição de autora que registrou em seus diários a realidade da pobreza e da vida na favela do Canindé.

A história se concentra justamente em um período fundamental de sua trajetória: o intervalo entre a produção de seus registros e a publicação de Quarto de Despejo. É nesse momento que o filme pretende acompanhar as transformações vividas pela escritora e a maneira como sua voz passou a ultrapassar os limites da comunidade onde vivia.

Publicado originalmente em 1960, Quarto de Despejo transformou os diários de Carolina em um dos mais importantes documentos literários e sociais do Brasil. A obra revelou ao país, por meio de uma linguagem direta e profundamente pessoal, o cotidiano da favela do Canindé e as experiências de uma mulher negra, mãe e escritora que encontrou na literatura uma forma de registrar sua própria existência.

Produção reúne nomes de diferentes gerações do audiovisual brasileiro

Com direção de Jeferson De, cineasta conhecido por trabalhos voltados à representação negra e às questões sociais brasileiras, o projeto tem roteiro assinado por Maíra Oliveira.

A produção é comandada por Clélia Bessa e Maria Gal, com produção associada de Cris Arenas, Rosane Svartman e Sara Silveira. O elenco reúne ainda Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina Cardoso, Ju Colombo, Caio Manhente, Jack Berraquero, Fabio Assunção, Alan Rocha e Thawan Lucas, entre outros artistas.

O filme é realizado pela Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, em coprodução com a Globo Filmes, contando ainda com produção associada da Dezenove Som e Imagem. A distribuição ficará a cargo da Elo Studios.

A participação de Vera Eunice, filha de Carolina Maria de Jesus, acrescenta uma camada particularmente simbólica ao projeto. Além de carregar a memória familiar da escritora, ela participa diretamente da construção cinematográfica dessa história.

A presença de Conceição Evaristo também estabelece uma conexão significativa entre diferentes gerações da literatura negra brasileira. Escritora, pesquisadora e referência internacional, Evaristo construiu uma obra marcada pela valorização das experiências da população negra, especialmente das mulheres negras.

Uma favela do Canindé reconstruída para o cinema

Para recriar o ambiente no qual Carolina Maria de Jesus viveu durante a década de 1950, a produção investiu em um elaborado trabalho de direção de arte.

As filmagens aconteceram no Rio de Janeiro, utilizando locações como a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e os Estúdios Quanta Rio de Janeiro. Foi nos estúdios que a equipe comandada pelo diretor de arte Billy Castilho construiu uma representação da Favela do Canindé dos anos 1950.

O cenário foi desenvolvido em uma área superior a 400 m². Para ampliar a escala da ambientação e criar uma conexão mais convincente com o espaço urbano, a produção utilizou também dois grandes painéis de LED, com dimensões de 12 x 5 metros e 4 x 3 metros.

Os painéis foram empregados para reproduzir diferentes perspectivas, incluindo o horizonte de São Paulo e outras extensões da região do Canindé. Com a combinação entre cenografia física e tecnologia de imagem, o conjunto ultrapassou 700 m², criando uma ambientação capaz de transportar elenco e equipe para a São Paulo retratada nos escritos de Carolina.

O resultado pretende ir além de uma simples reprodução histórica: a direção de arte busca reconstruir um espaço fundamental para compreender a formação da escritora e as experiências que posteriormente seriam transformadas em literatura.

Reconhecimento internacional em Cannes

Antes mesmo de chegar aos cinemas, “Carolina de Jesus” já começou a chamar atenção fora do Brasil.

Ainda em desenvolvimento e pós-produção, o longa participou neste ano do Goes to Cannes, iniciativa realizada dentro do Marché du Film, o tradicional mercado de negócios do Festival de Cannes.

O projeto brasileiro esteve entre apenas três produções de diferentes partes do mundo contempladas com um prêmio de mercado durante a iniciativa. O reconhecimento representa um importante passo para o filme e reforça o potencial internacional de uma história profundamente brasileira.

A conquista também evidencia como a trajetória de Carolina Maria de Jesus permanece capaz de dialogar com públicos de diferentes países. Afinal, embora seus textos estejam profundamente ligados à realidade brasileira, temas como desigualdade, maternidade, exclusão social, racismo, sobrevivência, criação artística e busca por dignidade possuem alcance universal.

Um encontro entre literatura, cinema e memória

A apresentação na Bienal do Livro de São Paulo surge, portanto, em um momento estratégico para o projeto. O evento permitirá que o público conheça mais sobre o processo de transformação da obra de Carolina em filme justamente em um espaço dedicado à literatura.

Mais do que apresentar uma adaptação cinematográfica, a produção busca recolocar em evidência uma personagem fundamental da cultura brasileira e ampliar a compreensão sobre a mulher que existia por trás dos diários que conquistaram leitores no Brasil e no mundo.

A expectativa agora se volta para o teaser, que será apresentado pela primeira vez durante o encontro na Bienal, oferecendo ao público uma primeira visão oficial da estética, da atmosfera e da interpretação de Maria Gal como Carolina Maria de Jesus.

Com lançamento previsto para 2027, o longa chega cercado por uma combinação de expectativa nacional, reconhecimento internacional e um objetivo ambicioso: transformar uma das vozes mais marcantes da literatura brasileira em uma experiência cinematográfica capaz de apresentar Carolina Maria de Jesus a uma nova geração.

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